domingo, 5 de julho de 2015

A Cura pela Meditação 2

Cristina Cairo
Após tantas buscas, tropeços e sofrimentos, a vida lançou-me nos braços do meu interior. A solução para os problemas está na sabedoria que reside em nossa essência e, para alcançá-la, precisamos aprender a meditar. Acredite no poder do silêncio e discipline a sua mente para aceitar a quietude. Meditar é viver aventuras que jamais serão encontradas no plano visível, mas podemos sentir seus efeitos em nossa vida material. Somos um oceano de energia e para sentirmos essa força é preciso ignorar, por minutos ou horas, os acontecimentos do dia-a-dia, fechando os nossos olhos e visualizando a grande luz, que  é a nossa essência verdadeira. Aprendi lições no silêncio e descobri que em meu interior existe uma escola de vida. Constatei que, por meio do silêncio profundo, é possível curar a própria doença, acalmar ambientes, auxiliar na cura de pessoas e ser uma pessoa cada vez melhor.

O corpo etérico é um invólucro de energia que fica próximo do corpo físico. Ele é denso, porém mais sutil que o corpo físico. O corpo etérico recebe energia do corpo astral, que é ainda mais sutil, e dos chakras, que atuam sobre esses três corpos, alimentando-os de substâncias vitais. Quando uma pessoa está doente, é preciso abrir seus chakras, pois seu corpo etérico foi bloqueado e não consegue transmitir energia vital ao corpo físico.

O budismo ensina princípios fundamentais para o comportamento correto do ser humano. Ensina que o mundo visível é ilusão e que a mente produz tudo o que é ruim e tudo o que é bom. O mundo da mente não conhece os caminhos do darma, o ensinamento que liberta o ser humano das limitações de sua consciência. A palavra darma significa a sabedoria que vive no Universo e que os santos ou avatares captaram em suas almas e espalharam pelo mundo, para quem conseguisse entendê-la e praticá-la.

Quando aplicamos o darma, conseguimos olhar para a nossa própria dor e, com distanciamento, perceber que ela pode desaparecer a qualquer momento, pois é apenas ilusão.

Ser livre é sentir a verdadeira paz de espírito que o darma proporciona; somos seres de essência iluminada e não apenas corpos que o tempo destrói. A realidade que vemos com os olhos da carne não é a mesma realidade que os olhos iluminados enxergam.

Quanto mais concentramos nossa atenção no silêncio da meditação, tanto mais escavaremos o túnel que nos leva ao ensinamento do darma. Meditar faz romper as barreiras da infinita represa de Deus, e os sofrimentos, sejam eles quais forem, desaparecerão na grandeza da luz. É preciso olhar o mundo sabendo que estamos de passagem. Brinque mais, pratique mudanças internas e liberte-se dos apegos. Saiba que vale a pena lutar para ser uma pessoa melhor. O retorno que a vida nos dá é do tamanho do nosso merecimento.

sábado, 4 de julho de 2015

A Entrega


Eckhart Tolle
A ENTREGA não transforma aquilo que é, ao menos não diretamente. A entrega transforma você. Quando você estiver transformado, todo o seu mundo fica transformado, porque o mundo é somente um reflexo. A doença não é o problema. Você é o problema, enquanto a mente estiver no controle.

Quando você estiver doente ou incapacitado, não sinta que fracassou de alguma forma, não sinta culpa de nada. Não culpe a vida por tratar você tão mal, mas também não se culpe de nada. Tudo isso é resistência. Se você tem uma doença grave, use-a para alcançar a iluminação. Use qualquer coisa "ruim" que acontecer na sua vida para alcançar a iluminação.

Retire o tempo da doença. Não dê a ela nenhum passado ou futuro. Deixe-a forçar você para a percepção intensa do momento presente. E veja o que acontece. Torne-se um alquimista. Transforme o metal em ouro, o sofrimento em consciência, a infelicidade em iluminação.

Sempre que acontecer uma desgraça ou alguma coisa de ruim na sua vida - uma doença, a perda da casa, do patrimônio ou de uma posição social, a morte ou o sofrimento por alguém, ou a proximidade da sua própria morte -, saiba que existe um outro lado e que você está a apenas um passo de distância de algo inacreditável: uma completa transformação alquímica da base de metal da dor e do sofrimento em ouro. Esse passo simples é chamado de entrega.

Não estou querendo dizer que você vai ficar feliz em uma situação dessas. Não vai. Mas o medo e o sofrimento vão se transformar em uma paz interior e uma serenidade que vêm de um lugar muito profundo. Essa é a "paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento". Comparada a isso, a felicidade é quase uma coisa superficial. Com essa paz radiante, vem a percepção - não no nível da mente, mas dentro das profundezas do seu Ser - de que você é indestrutível, imortal. Isso não é uma crença. É uma certeza absoluta, que não precisa de uma manifestação exterior nem de qualquer prova.

Quando nos rendemos àquilo que é e assim ficamos inteiramente presentes, o passado deixa de ter qualquer força. Não precisamos mais dele. A presença é a chave. O Agora é a chave.

Como a resistência é inseparável da mente, o abandono da resistência - a entrega - é o fim da atuação dominadora da mente, do impostor fingindo ser "você", o falso deus. Todo o julgamento e toda a negatividade se dissolvem. A região do Ser, que tinha sido encoberta pela mente, se abre.

De repente, surge uma grande serenidade dentro de você, uma imensa sensação de paz. E, dentro dessa paz, existe uma grande alegria. E, dentro dessa alegria, existe amor. E lá no fundo está o sagrado, o incomensurável, o que não pode ser nomeado.

In: Praticando o Poder do Agora – Eckhart Tolle

Apaixonar-se

   Nancy Qualls-Corbett
Apaixonar-se é sempre o resultado de uma projeção; não é sentimento maduro de respeito e admiração pelo outro; ao contrário, ama-se um aspecto de si mesmo.

Quando a projeção é retirada, a realidade da pessoa é percebida e pergunta-se então: “O que via eu nele (ou nela)?”.

Para que a mulher se possa tornar  mais do que apenas o reflexo de seu amante, a projeção tem que ser conscientemente extirpada. Ela precisa conseguir entender que as qualidades que ela vê nele estão, na realidade, dentro dela própria.

Nesse ponto, ela  consegue também apreciar a força madura do masculino, o deus dentro dela, sem perder a conexão com sua natureza feminina.

Todo homem carrega dentro de si uma eterna imagem de mulher, que não é a imagem desta ou daquela mulher em particular, mas uma imagem feminina definida.

Essa imagem é fundamentalmente inconsciente, fator hereditário de origem primordial, gravado no sistema orgânico vivo do homem, uma impressão ou um “arquétipo” de todas as experiências antepassadas da mulher.
                           

domingo, 21 de junho de 2015

Jesus - O Filho do Homem

Wagner Borges
              Wagner Borges
    (Um Depoimento Extrafísico) 


Eu O vi passar com seus discípulos. O seu rosto era um sol, e sua prosa era muito agradável. Ele falava do Pai Celestial e ensinava que o Seu Amor estava em tudo. E Ele era risonho, gostava de crianças e de tomar banho de chuva. 

E eu me perguntava como o filho do Senhor podia ser tão simples, e ainda caminhar com os homens como igual? Ele, o Grande Médico da Alma, que era pura simplicidade. Ele, que via a verdade dentro do coração dos homens, sem jamais julgá-los, e que tinha o brilho das estrelas no olhar, o toque generoso e criativo, e um Grande Amor em seu coração.

Sim, eu O vi passar, e Ele fitou-me diretamente nos olhos. Então, eu soube que Ele tinha visto a verdade em meu coração. E uma onda de ternura serena entrou em mim. E eu chorei muito, pois o amor daquele olhar dissolveu as faixas escuras que apertavam meu coração. 

Eu era um homem cheio de arrogância e adorava julgar os outros. Mas Ele me olhou como quem olha um irmão querido. Eu andava em trevas, porém, o olhar d'Ele fez raiar a luz da aurora em meu Ser. Ele estava ali, com o olhar do amanhecer da consciência, andando entre os homens da Terra... 

E eu fui tocado, em Espírito e Verdade, e tudo mudou! Sim, o Amor dissolveu meu egoísmo. A Luz curou minha dor, que era o vazio de consciência. Nunca mais O vi, mas Ele mudou minha vida, para sempre...E as trevas que me rondavam, se foram. 

Desde então, caminho cheio de gratidão... E isso eu devo ao olhar d'Ele, o olhar do amanhecer da consciência... O olhar de Jesus, o Filho do Homem.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Libertando o Coração

Lawrence W. Jaffe
Em um dos principais tópicos abordados no livro “Libertando o Coração”, Lawrence W. Jaffe  trata de um tema básico da Psicologia: a projeção. Projetar é ver fora de nós mesmos aquilo que está dentro de nós. Freud e outros psicólogos de primeira grandeza viam na projeção o mais poderoso mecanismo de defesa da personalidade. Desde cedo, em nossas vidas, erigimos essa muralha de defesa e lançamos à clandestinidade partes essenciais de nosso ser. Reconhecer essas projeções e trazê-las de volta a suas origens é uma tarefa que exige muita determinação e é tão grandiosa que o autor a considera uma “obra divina".
                    

Libertando o Coração

O que outrora aceitávamos por uma questão de fé, temos agora de chegar a conhecer pela experiência. Hoje, muitas pessoas não podem mais acreditar em algo somente porque alguma autoridade, por mais respeitável que seja, assim lhes determina. Jung era assim. Quando lhe perguntaram, aos oitenta e um anos, se acreditava em Deus, ele respondeu: “Eu não acredito. Eu sei”. Tendo tido a experiência de Deus, ele não precisava acreditar n’Ele.

Reconhecer e retirar as projeções é obra divina, pois, assim fazendo, estamos descobrindo a nossa consciência e descobrindo quem somos. Como disse Clemente de Alexandria, padre da igreja, “Quando um homem conhece a si mesmo, ele conhece a Deus”. 
Além disso, nós dispensamos as outras pessoas de carregar a pesada carga emocional de nossas percepções errôneas, de nossos erros de julgamento, de identificação e de nossas distorções.

O que acontecerá quando os homens e as mulheres deixarem de projetar tanto uns sobre os outros? Ou melhor, o que será de nós quando começarmos a ver em nós mesmos características antes atribuídas ao outro sexo?

Por que é que eu afirmo que a liderança espiritual transferiu-se agora para a mulher? Porque a mulher forçou corajosamente os homens a deixar de fazer projeções sobre ela.  A mulher, espontaneamente, começa a sacrificar o poder que tinha antes nas mãos, em virtude dessas mesmas projeções. Cabia às mulheres muito poder, por exemplo, advindo do desejo erótico que os homens sentiam por elas. Atualmente, muitas mulheres modernas preferem aplicar suas energias em outras coisas, de preferência a cultivar e explorar seus atrativos “femininos”

A alma é uma personificação do inconsciente, onde jaz o tesouro, a libido imersa na introversão, e alegorizado como reino de Deus. A libido concentrada no inconsciente era anteriormente investida nos objetos, o que fazia o mundo parecer todo-poderoso. Deus estava então do “lado de fora”, mas agora ele age a partir de dentro, tal como o tesouro oculto concebido como reino de Deus. 

Tudo o de que precisamos pode ser encontrado dentro de nós. Eis aí uma verdade a que nós dificilmente nos apegamos, em parte porque na sociedade mais extrovertida do mundo, a América, afirmam-nos constantemente que aquilo de que necessitamos está fora de nós, no shopping center, no salão social da igreja ou na universidade.


domingo, 23 de novembro de 2014

Manoel de Barros

Manoel de Barros
O poeta Manoel de Barros faleceu em 13 de novembro de 2014, aos 97 anos de idade. Nasceu em Cuiabá e passou sua infância em Corumbá, em meio à natureza exuberante do Pantanal. Nos últimos anos, residia em Campo Grande com a esposa. 
O que mais me atrai nos poemas de Manoel de Barros é sua paixão pela natureza; tudo despertava nele encantamento: os pássaros, as aves, os rios. Dizia ele: “Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso.”
Em homenagem ao poeta, transcrevo abaixo um de seus poemas: Gratitude das Aves e dos Lírios.

                               Gratitude das Aves e dos Lírios


Sempre que a gratuidade pousa em minhas palavras,
elas são abençoadas por pássaros e por lírios.
Os pássaros conduzem o homem para o azul,
para as águas, para as árvores e para o amor.

Ser escolhido por um pássaro para ser a árvore dele:
eis o orgulho de uma árvore.
Ser ferido de silêncio pelo voo dos pássaros:
eis o esplendor do silêncio.
Ser escolhido pelas garças para ser o rio delas:
eis a vaidade dos rios.
Por outro lado, o orgulho dos brejos é o de serem escolhidos
por lírios, que lhes entregarão a inocência.

Sei, entrementes, que a ciência faz cópia de ovelhas,
que a ciência produz seres em vidros.
Louvo a ciência por seus benefícios à humanidade,
mas  não concordo que a ciência não se aplique em produzir
Encantamentos.

Por quê não medir, por exemplo, a extensão do exílio das cigarras?
Por quê não medir a relação de amor que os pássaros têm com as brisas da manhã?
Por quê não medir a amorosa penetração das chuvas no dentro da terra?

Eu queria aprofundar o que não sei, como fazem os cientistas,
 mas só na área dos encantamentos.
Queria que um ferrolho fechasse o meu silêncio, para eu sentir melhor as coisas incriadas.
Queria poder ouvir as conchas, quando elas se desprendem da existência.
Queria descobrir por quê os pássaros escolhem a amplidão para viver,
enquanto os homens escolhem ficar encerrados em suas paredes.

Sou leso em tratagem com máquina; mas inventei, para meu gasto,
um Aferidor de Encantamentos.
Queria medir os encantos que existem nas coisas sem importância.
Eu descobri que o sol, o mar, as árvores e os arrebois são mais enriquecidos pelos pássaros do que pelos homens.

Eu descobri, com o meu Aferidor de Encantamentos, que as violetas e as rosas e as acácias são mais filiadas dos pássaros do que os cientistas.
Porque eu entendo, desde a minha pobre percepção, que o vencedor, no fim das contas, é aquele que atinge o inútil dos pássaros e dos lírios do campo.
Ah, que estas palavras gratuitas possam agora servir de abrigo para todos os pássaros do mundo!



sábado, 15 de novembro de 2014

Por que meditar

Bokar Rinpoche

Bokar Rinpoje é um  sábio budista, nascido no Tibete em 1940. Como tantos outros sábios, em 1959 ele teve que abandonar o Tibete, ocupada então pelos chineses. Em 1980, inicia suas viagens pelo Ocidente, onde instala centros de meditação, sobretudo na França. Bokar é autor de vários livros, dentre os quais se destaca   “Meditação - Conselhos aos Principiantes”. Bokar mostra que o sofrimento e a felicidade não dependem de fatores externos , mas da própria mente. Ele oferece maneiras de evitar o sofrimento e desenvolver felicidade e paz.

                 Meditação - Conselho aos principiantes

Os homens são afligidos por sofrimentos, angústias e medos inumeráveis e são incapazes de evitá-los. A meditação tem por função eliminar esses sofrimentos e essas angústias.

Pensamos, geralmente, que felicidade e sofrimento surgem de circunstâncias exteriores. O ponto de vista budista considera, ao contrário, que felicidade e sofrimento não dependem fundamentalmente das circunstâncias exteriores, mas da própria mente. Uma atitude de mente positiva engendra a felicidade, uma atitude negativa produz o sofrimento.

Como compreender esse engano que nos faz procurar fora aquilo que podemos encontrar dentro? Uma pessoa de rosto limpo e nítido, ao se olhar em um espelho vê um rosto limpo e nítido. Aquele cujo rosto é sujo e maculado de lama vê no espelho um rosto sujo e maculado. Em verdade, o reflexo não tem existência; só o rosto existe. Esquecendo o rosto, tomamos seu reflexo por real. A natureza positiva ou negativa de nossa mente se reflete nas aparências exteriores que nossa própria mente nos envia. A manifestação exterior é uma resposta à qualidade de nosso mundo interior.

A felicidade que desejamos não virá da reestruturação do mundo que nos cerca, mas da reforma de nosso mundo interior. O indesejável sofrimento só cessará na medida em que não embotarmos nossa mente com todos os tipos de negatividades. Enquanto não reconhecermos que felicidade e sofrimento têm sua origem em nossa própria mente, permanecemos impotentes para estabelecer um estado de felicidade autêntica, impotentes para evitar as contínuas ressurgências do sofrimento. Qualquer que seja nossa esperança, ela é sempre decepcionada.

 Se, ao descobrirmos no espelho a sujidade de nosso rosto, decidíssemos lavar o espelho, mesmo que esfregássemos fortemente durante anos com sabão e água em abundância, nada aconteceria; nem a mínima sujeira, nem a mínima mancha desapareceria do reflexo. Por falta de orientarmos nossos esforços para o objeto justo, eles permanecem perfeitamente vãos. Eis por que o budismo e a meditação têm por primordial compreender que felicidade e sofrimento não dependem fundamentalmente do mundo exterior, mas de nossa própria mente. Na falta dessa compreensão, nunca nos voltaríamos para o interior e continuaríamos a investir nossa energia e nossas esperanças numa vã busca exterior. Uma vez adquirida essa compreensão, podemos lavar nosso rosto: o reflexo surgirá limpo no espelho.

   É preferível, para os principiantes, limitar-se a curtas sessões de dez ou quinze minutos. Mesmo que a meditação seja boa, devemos parar. Depois, se dispusermos de tempo necessário, faremos uma segunda sessão curta, após uma pausa. Melhor é proceder por uma sucessão de curtas sessões, do que engajar-se numa longa sessão que, mesmo boa no início, corre o risco de resvalar para a dificuldade e cansar o meditador.

   Os principiantes, sem saber com exatidão o que é a meditação, criam a expectativa de uma calma perfeita, totalmente livre dos pensamentos. Temem sua vinda e, quando estes surgem, desolam-se por sua incapacidade de meditar. Temer os pensamentos, irritar-se ou inquietar-se com seu aparecimento, crer que a falta de pensamentos é uma boa coisa em si, são erros que conduzem a um estado de frustração e culpa inúteis. A mente de um não-meditador, de um principiante e de um meditador confirmado, é atravessada por pensamentos. Mas, a maneira de abordá-los varia de modo considerável de um para o outro.

Alguém que não pratica a meditação é, em sua relação com os pensamentos, semelhante a um cego, o rosto voltado para uma estrada longínqua. O cego é incapaz de ver se automóveis passam ou não na estrada. Da mesma forma, a pessoa comum, embora experimentando um sentimento vago de desconforto e mal estar interiores, não está consciente da torrente de pensamentos que, no entanto, escoa sem interrupção.

Ao começarmos a meditar, descobrimos os olhos para ver, mas gostaríamos que não passasse nenhum automóvel na estrada. Vem um primeiro automóvel, nossa atenção decepciona-se. Um segundo, nova decepção. Um terceiro,  irritamo-nos, etc. A esperança ingênua de uma estrada vazia é incessantemente enganada. Estamos ao mesmo tempo conscientes e infelizes com a sucessão dos veículos. Cada automóvel que passa é uma nova dificuldade. Revoltamo-nos contra um estado de coisas inevitável. Quando encaramos a meditação como um espaço desprovido de pensamentos, cada pensamento que se apresenta contradiz com evidência esse esquema preconcebido; estamos em situação de fracasso quase permanente.

Quando, ao contrário, compreendemos bem em que consiste a meditação, vemos desfilar os automóveis,  mas sem revolta nem recusa, sem ter decidido que a estrada deveria estar vazia. Não esperamos a ausência de veículos, assim como não nos apavoramos com sua presença. Os automóveis passam e os deixamos passar; eles não são nem nocivos, nem benéficos. Se os pensamentos se elevam, deixamos que passem  naturalmente, sem nos ligarmos a eles nem condená-los.  Uma abordagem sã dos pensamentos condiciona uma boa meditação. As pessoas que compreendem mal a meditação creem que todos os pensamentos devem cessar. Não podemos, de fato, estabelecer-nos num estado sem pensamentos. O fruto da meditação não é a ausência de pensamentos, mas o fato de que os pensamentos cessam de ser nocivos para nós. De inimigos, os pensamentos tornam-se amigos.  

Meditar alguns dias, alguns meses, até mesmo um ano, depois abandonar, também não dará frutos. Um enfermo deve tomar seus medicamentos até a cura completa. Se ele para o tratamento, mesmo que este dure meses ou anos, o mal triunfará. Devemos prosseguir nossa meditação, até que tenhamos alcançado uma realização efetiva e estável. Regularidade e perseverança são duas condições necessárias para uma meditação proveitosa.